“O encontro de duas personalidades é como o contato de duas substâncias químicas: se houver alguma reação, ambas se transformam.”
Carl Gustav Jung
Durante muito tempo, eu mesma associei o charuto a um universo exclusivamente masculino. Poltronas de couro, conversas longas, gestos ritualísticos, uma certa solenidade no ar. Parecia existir ali um território quase simbólico, habitado por homens e suas narrativas.
Até que um dia eu sentei, observei, experimentei — e percebi que havia muito mais ali do que uma tradição masculina.
Havia presença.
Acender um charuto é, antes de tudo, um convite à pausa. Em um mundo onde somos constantemente pressionadas a produzir, resolver, correr e responder, o charuto pede exatamente o contrário: tempo. Tempo para respirar, para conversar, para ouvir, para pensar — ou simplesmente para contemplar.
Para mim, não se trata de imitar um comportamento masculino, muito menos de disputar espaços. Trata-se de algo muito mais interessante: habitar o espaço com autenticidade.
Existe um charme silencioso nesse gesto. Uma elegância que não é exibicionismo, mas autoconfiança. A mulher que aprecia um charuto não precisa provar nada a ninguém. Ela apenas se permite viver uma experiência sensorial, estética e até filosófica.
Carl Gustav Jung dizia que todo ser humano carrega em si duas dimensões simbólicas fundamentais: o masculino e o feminino. Ele chamou essas forças de ânima e ânimus, afirmando que o processo de amadurecimento psicológico acontece justamente quando essas energias encontram um diálogo interno mais harmônico.
Talvez seja por isso que ambientes exclusivamente masculinos ou exclusivamente femininos tendem, com o tempo, a ficar um pouco empobrecidos. Falta-lhes o contraponto, o equilíbrio, a dança entre perspectivas diferentes.
Quando mulheres passam a ocupar o universo do charuto, não estão rompendo uma tradição — estão ampliando essa tradição.
E fazem isso com algo que sempre fez parte do feminino: sensibilidade, escuta, presença e uma certa capacidade de transformar ambientes apenas pela forma como habitam o espaço.
Ao mesmo tempo, é impossível não reconhecer que nós, mulheres, também temos muito a aprender com os homens nesse ambiente. Existe no universo do charuto uma espécie de pedagogia silenciosa: a arte de falar menos, de ouvir mais, de permitir que as pausas existam sem a necessidade de preenchê-las o tempo todo. Os homens, muitas vezes, cultivaram ali um hábito raro no mundo contemporâneo — o da contemplação. Sentar, observar a fumaça subir lentamente, deixar os pensamentos amadurecerem antes de serem ditos. Para nós, que tantas vezes fomos educadas a responder rápido, a explicar demais, a cuidar de tudo ao mesmo tempo, essa experiência pode ser quase um exercício de introspecção.
Também existe algo profundamente bonito nas amizades que surgem nesses encontros. O charuto cria tempo. E o tempo cria conversas verdadeiras. Histórias são compartilhadas, experiências se cruzam, silêncios confortáveis aparecem.
Entre uma tragada e outra, percebo que o charuto tem algo de meditativo. A fumaça sobe lentamente, os pensamentos desaceleram, e a mente encontra um ritmo que a vida moderna raramente permite.
Talvez, no fundo, seja por isso que cada vez mais mulheres têm se aproximado desse universo. Não por rebeldia. Não por provocação. Mas por curiosidade, elegância e liberdade.
Porque existem experiências que simplesmente merecem ser vividas.
E se o mundo do charuto sempre foi um espaço de tradição, talvez agora ele esteja descobrindo algo ainda mais interessante: que tradição e transformação podem caminhar juntas.
P.S. Neste Dia Internacional da Mulher, deixo também meu carinho e meu respeito a todas as mulheres. Que possamos celebrar nossas conquistas, nossa força e nossa presença nos mais diversos espaços. Mas é importante lembrar que esta data não é apenas comemorativa — ela é, sobretudo, um marco de luta. No Brasil, em média, quatro mulheres são vítimas de feminicídio todos os dias, um dado que nos convoca à reflexão e à responsabilidade coletiva. Que o 8 de março seja, portanto, não apenas um dia de celebração, mas também de consciência, respeito e compromisso com a vida das mulheres.
Cláudia Nagau
Psicanalista e mestre em educação.






