Ainda estou com o café correndo nas veias como quem decidiu morar aqui por algumas horas extras, sem contrato, sem aviso prévio. O corpo ainda está em ritmo acelerado, e eu aproveito esse intervalo antes que o efeito do café passe e o sono venha para escrever estas linhas enquanto ainda há claridade por dentro. Voltei há pouco de um evento de harmonização de charuto e café e há um resto de noite que insiste em não se dissolver. Fumaça, vozes, risos e músicas continuam circulando por dentro e encontram abrigo.


Foi uma daquelas noites em que o tempo perdeu o costume de mandar. Ele fica ali, encostado, só observando. E a gente segue.
A música não foi fundo de cena, foi personagem. Em algum momento, Nina Simone, com seu sofrimento, parecia ocupar o centro da mesa sem precisar de cadeira. O ar ganhava densidade, e cada nota pedia silêncio antes de nascer.
Depois, sem pedir licença, Alceu Valença abriu todas as janelas de uma vez. Mudou o clima sem apagar o anterior, apenas reorganizando a temperatura do espaço.
O café do meu amigo Sérgio apareceu como início de conversa e permanência ao mesmo tempo. E ali aconteceu uma pequena surpresa quase doméstica: fez uma dança perfeita com o queijo. Quem imaginaria que café combina tanto com queijo. Era como se os dois já soubessem disso há muito mais tempo do que nós.
O Abdullah conduziu a noite com a mesma naturalidade com que oferece conhecimento sem transformar isso em aula. Abriu o caminho do charuto com uma apresentação excepcional, quase uma leitura do próprio objeto, como quem revela camadas antes da fumaça existir. Ele nos brinda com esse tipo de percepção generosa, que não pesa, apenas amplia.
E é também ele quem, mais adiante, encerra o segundo terço do Toscano com uma taça de vinho, fechando um capítulo sem interromper a história. Não foi interrupção. Foi passagem.



O Toscano apenas acompanha a noite, sem pressa de disputar espaço com a conversa. Não apressa nada, mas marca as passagens com uma paciência antiga. Cada terço não é só divisão do charuto, é mudança de clima, de assunto, de profundidade. “Pode fumar, Cláudia… sem medo. Eu te disse.”
A conversa se abria como uma mesa maior do que a própria mesa. Literatura, filosofia, história e teatro atravessavam os assuntos como correntes subterrâneas, às vezes emergindo, às vezes apenas sugeridas, mas sempre presentes.
Foi também uma noite de risos fáceis com a minha amiga Cláudia, desses risos que não precisam de contexto para acontecer. Bastava o olhar certo na hora errada.
Meu amigo Pedro estava lá. Nossos encontros não são frequentes; têm algo de sazonal, obedecem a um calendário que não pertence aos dias, mas às coisas que retornam quando precisam. Não há rotina, há intervalo. E cada reencontro parece continuação, não começo.
E há algo curioso nisso: apesar de conhecê-lo há tão pouco tempo, a sensação é de uma amizade antiga, espessa, acumulada. No papel, são quatro ou cinco anos. No corpo, parece muito mais.
Pedro tem uma presença discreta, quase em observação, sempre um meio passo fora e ao mesmo tempo completamente dentro da cena. Em algum momento da noite, a música “Meu Amigo Pedro”, de Raul Seixas, atravessa a memória — não como definição, mas como eco.
E junto disso vem, de forma inevitável, a frase: “Mas não me critique como eu sou. Cada um de nós é um universo, Pedro.” Entre nós, isso não soou como explicação, mas como reconhecimento. Ele não me critica; apenas aceita a minha forma de existir, com todas as minhas intensidades e desvios, ou melhor, minha loucura.
Ele simplesmente pertence, e a conversa já o esperava antes dele chegar.
O charuto desacelera tudo sem estragar nada. Não apressa pensamento, apenas acompanha.
Há ainda três presenças naquela noite com quem eu não tinha convivência anterior. Mas o ambiente do charuto cria esse tipo de aproximação lenta, sem exigência de definição. Nada ali pede intimidade imediata, mas tudo a sugere.
E havia também isso: a amizade como substância ativa da noite. Não como tema, mas como atmosfera.
No fundo, tudo se organiza sem esforço: café abrindo caminhos para a fala, e a amizade sustentando esses caminhos.
Saí com a sensação de que algumas noites não terminam quando acabam. Apenas mudam de estado. Continuam trabalhando dentro da gente, discretamente, como brasas que recusam a pressa de virar cinza.
Apenas isso: entre amigos, ninguém nunca está deslocado.
Rodrigo D’urso , Sommelier de charutos e colecionador de whisky e cachaça.
@rodrigo.durso





