Na minha última visita ao Don Corleone Louge eu, novamente, tive uma experiência que foi, de fato, surpreendente.
Fui para um visita rápida e acabei experimentando um charuto que terminou em mais uma harmonização fabulosa, de extrema satisfação.
Dessa vez foi o CAO medio tiempo. Capa escura, oleosa, apaixonante na minha humilde opinião, que em primeira impressão causou espanto, apesar de ser de uma fortaleza de média para alta, achei que iria me derrubar, mas, não sei ao certo, por já estar utilizando o rapé durante o dia foi de uma elegância e que não me levou ao nocaute.
Uma capa americana medio tiempo, capote dominicano e com miolo dominicano e nicaraguense foi uma experiência que se desenvolveu de maneira que não esperava e de novo, desculpe minha repetição, surpreendeu em todos aspectos.
Para acompanhar esse charuto escolhemos como o Aberlour 12, não filtrado, 48% de teor alcoólico, que ficaria perfeito com a composição de tabacos desse charuto. Esse whisky devido ao mais alto teor de álcool, não ser filtrado, conseguiria sustentar o charuto do inicio ao fim, sem haver interferência de nenhum dos dois.
Logo de início no olfato eu senti muito algo que me lembrou uma fazenda, vou lhe dizer, mas não me interprete de maneira negativa, um cheiro de fazenda, o que me fez voltar ao tempo que ia com meu avô em uma fazenda de um amigo dele, foi exatamente essa viagem no tempo que bem antes de acender o charuto já havia acontecido. Fumando “à frio” pude sentir algo balsâmico, especiarias e algum carvalho de barril envelhecido.
Ele tem um fluxo mais apertado, mas nada que incomoda, mas quando aceso, logo no primeiro toque do calor da chama o ambiente se perfumou de uma maneira que sabia que aquela harmonização seria muito rica. Cabe lembrar que seria a primeira vez que experimentei esse charuto e com certeza não será a última.
Durante o primeiro terço, junto com o Whisky ele causou diferentes percepções no paladar, posso dizer diferentes pois alterando a ordem, ora de whisky primeiro, ora do charuto primeiro, essas percepções mudavam. Começando com o whisky o sabor do charuto caminhava muito mais para o carvalho, a picância se fazia mais presente. E de repente me aparece um umami na boca que tentei entender de onde surgiu, mas que apareceu no segundo terço e me fisgou. Quando começava com o charuto o perfil do Aberlour mudava e ele ficava muito mais floral, em alguns momentos até mesmo o perfil de frutas do whisky ia embora e voltava sem menos avisar. E assim foi durante o segundo terço. Couro, lavanda, terra estavam entre as percepções.
Em dado momento do segundo terço resolvemos harmonizar esse charuto com o nosso rapé. Não posso indicar marcas, estilo ou algo parecido, pois é o blend do meu amigo Abdullah, cada vez que faço a visita ao lounge o blend muda, mas posso dizer que surpreende, mas voltando a experiência, com essa harmonização charuto/rapé aconteceu uma coisa realmente insana, o paladar depois de uma pitada do rapé e a combinação desse charuto se tornou uma harmonização que não imaginei que tomaria esse caminho, a sensação era de que o whisky se tornou muito mais presente em Baunilha e mais doce que o normal, agora combinando com o charuto a sensação em boca evolui para um crème brûlée que iluminou os nosso olhares com certeza, ficando a pergunta “de onde surgiu isso?”.
Posso dizer que o charuto nessa harmonização, com o whisky, com o rapé, foi novamente uma descoberta e uma experiência que nos trouxe uma ótima experiência, uma aventura de quase uma hora e meia.
Mais uma harmonização que pode e deve ser experimentada sem medo e que vale a pena ser registrada em todas suas nuances, pois nos surpreendia a cada baforada, a cada gole e a capa pitada do rapé.
Seria impossível desejar que quem duplicar essa harmonização tenha a mesma experiência, mas tenho certeza que causará surpresa em quem passar por ela.
Um grande abraço e saúde a todos.
Rodrigo D’urso , Sommelier de charutos e colecionador de whisky e cachaça.






