Eu tenho uma certa simpatia por Freud fumando um charuto.
Talvez porque exista alguma coisa profundamente humana nessa imagem. O homem que passou a vida tentando descobrir o que existe por trás das palavras, dos sonhos, dos sintomas, dos esquecimentos e dos desejos está ali, simplesmente… fumando.
E isso me faz pensar naquela frase tão conhecida:
“Às vezes, um charuto é apenas um charuto.”
A primeira ironia é que provavelmente Freud nunca disse isso.
A frase é atribuída a ele há décadas, mas não existe uma fonte confiável que comprove que tenha realmente saído de sua boca. E eu confesso que gosto dessa história justamente por causa disso.
Porque nós, psicanalistas, adoramos interpretar.
Interpretamos o sonho.
Interpretamos o silêncio.
Interpretamos o que foi dito e, principalmente, aquilo que não foi dito.
Interpretamos o lapso, o sintoma, a escolha, a repetição, o desejo que aparece disfarçado.
E, de repente, aparece um charuto na nossa frente e queremos saber imediatamente: mas o que esse charuto significa?
Freud provavelmente daria uma risadinha.
Porque o curioso é que ele realmente gostava de fumar.
Muito.

Freud começou a fumar ainda jovem, aos 24 anos, e chegou a consumir mais de vinte charutos por dia. Entre os charutos associados ao seu hábito estão os Don Pedro, os Reina Cubana e os Trabuco. O cigarro também fazia parte de sua rotina de trabalho e de sua vida cotidiana.
Não era exatamente um detalhe.
Era um hábito.
Uma dependência.
Um prazer.
E talvez as três coisas ao mesmo tempo.
Freud chegou a continuar fumando mesmo depois de descobrir, em 1923, que tinha câncer na boca. Nos últimos anos, o hábito tornou-se extremamente doloroso e difícil, mas ele não conseguiu simplesmente abandoná-lo.
Isso sempre me interessa quando penso em Freud.
Porque às vezes transformamos os grandes pensadores em pessoas quase sobrenaturais.
Esquecemos que eles também tinham suas contradições.
Freud estudou profundamente os mecanismos do desejo, mas também tinha os seus.
Estudou a compulsão, mas tinha seus próprios hábitos compulsivos.
Investigou a relação entre prazer e sofrimento e carregou, no próprio corpo, uma relação bastante complexa com aquilo que lhe dava prazer.
E existe ainda outro capítulo dessa história: a cocaína.
Na década de 1880, Freud pesquisou a substância e publicou, em 1884, um trabalho sobre seus possíveis usos médicos. Naquele momento histórico, a cocaína ainda não era compreendida como seria posteriormente, e Freud chegou a defendê-la em determinados contextos. Mais tarde, essa posição seria vista de maneira bastante crítica.
Olha que homem contraditório.
E que bom que ele era.
Porque talvez seja justamente isso que torne Freud tão interessante.
Ele não estudava o ser humano de fora.
Ele estava dentro da experiência humana.
E é impossível não pensar nisso enquanto assistimos a A Tabacaria.

O filme de Nikolaus Leytner, inspirado no romance Der Trafikant, de Robert Seethaler, nos leva para a Viena do final dos anos 1930. Franz, um garoto de 17 anos, deixa sua vida no interior e vai trabalhar como aprendiz em uma tabacaria. Entre os clientes está ninguém menos que Sigmund Freud, interpretado por Bruno Ganz.
E aqui está uma das coisas que mais gosto no filme:
Freud não aparece como monumento.
Ele aparece como homem.
Um homem já velho, cansado, espirituoso, um pouco irônico, que compra seus charutos e conversa com um adolescente apaixonado.
Franz está tentando entender as mulheres.
O que, convenhamos, é uma tarefa suficientemente difícil até para um psicanalista.
E Freud não se apresenta como aquele sujeito que tem todas as respostas.
Talvez porque saiba que não tem.
Enquanto Franz tenta compreender o amor, os sonhos e o próprio amadurecimento, Viena começa a ser tomada pelo nazismo.
E essa é a parte que mais me atravessa no filme.
Porque existe uma história íntima acontecendo ao mesmo tempo em que a História, com H maiúsculo, está desabando sobre aquelas pessoas.
Franz está apaixonado.
Freud está envelhecendo.
A tabacaria continua funcionando.
Os charutos continuam sendo vendidos.
As pessoas continuam acordando, trabalhando, comendo, desejando, brigando, fazendo sexo, se apaixonando.
E, ao mesmo tempo, uma sociedade inteira está caminhando para o horror.
É aí que A Tabacaria deixa de ser apenas um filme sobre Freud.
Passa a ser um filme sobre aquilo que fazemos quando o mundo ao redor começa a perder o sentido.
E talvez por isso os sonhos de Franz sejam tão importantes.
Ele sonha porque ainda não sabe dizer.
E Freud o incentiva a observar os próprios sonhos.
Mas o filme não precisa transformar Freud em um oráculo.
Aliás, acho até melhor que não faça.
Porque Freud não era um homem que entregava respostas prontas.
Ele nos ensinou, sobretudo, a desconfiar das respostas fáceis.
E talvez essa seja uma das maiores heranças da Psicanálise.
Não precisamos interpretar tudo.
Precisamos aprender a escutar.

Há uma diferença enorme entre as duas coisas.
Interpretar pode ser uma forma de compreender.
Mas também pode ser uma maneira elegante de controlar aquilo que não suportamos não compreender.
E aqui eu volto ao charuto.
Talvez ele não seja um símbolo.
Talvez seja.
Talvez seja oralidade, prazer, dependência, repetição, ritual, pulsão.
Podemos construir teorias maravilhosas sobre ele.
Mas existe uma possibilidade muito mais simples:
Freud gostava de charutos.
E pronto.
Que liberdade existe nisso!
Nem tudo precisa carregar uma mensagem secreta.
Nem toda escolha precisa ser uma confissão do inconsciente.
Nem todo gesto precisa ser transformado em diagnóstico.
Às vezes, uma pessoa está apenas fazendo aquilo que gosta.
Às vezes, um homem está fumando um charuto.
E talvez a grande provocação freudiana esteja justamente aí, mesmo que a frase não seja dele:
saber quando interpretar e saber quando deixar alguma coisa simplesmente existir.
Freud morreu em Londres, em 1939, depois de fugir de Viena diante da perseguição nazista.
E eu fico pensando naquele homem que passou a vida tentando compreender o que havia por trás daquilo que dizíamos e fazíamos.
Talvez ele soubesse, melhor do que ninguém, que o ser humano é feito de contradições.
Somos desejo e medo.
Somos razão e impulso.
Somos aquilo que conseguimos explicar e aquilo que nos escapa.
Somos, muitas vezes, o discurso que fazemos sobre nós mesmos — e também aquilo que fazemos apesar desse discurso.
Talvez seja por isso que ainda falamos tanto de Freud.
Não porque ele tenha explicado o ser humano.
Mas porque ele teve a coragem de mostrar que o ser humano não é tão explicável assim.
E, quem sabe, foi por isso que gostava tanto de seus charutos.
Não para simbolizar alguma coisa.
Não para mandar uma mensagem ao mundo.
Mas porque, durante alguns minutos, ele podia simplesmente fumar.
Sem interpretar.
Sem explicar.
Sem precisar ser Freud.
Apenas um homem.
Com um charuto na mão.
E, às vezes, talvez isso seja tudo.





