Dizem que as mulheres são de Vênus e os homens de Marte — ou seria o contrário? No fundo, pouco importa a geografia exata dessa metáfora tão conhecida. O que ela tenta nomear, com leveza, é algo mais profundo: habitamos corpos diferentes, atravessados por experiências distintas, e, ainda assim, buscamos sensações semelhantes — entre elas, o alívio, o prazer e esse raro estado de presença que, às vezes, encontramos nos pequenos rituais do cotidiano.
Há um instante muito particular no ato de fumar. Não é exatamente a primeira puxada, nem a última — é o intervalo entre uma e outra, quando o tempo parece desacelerar e o corpo encontra um ritmo próprio. Nesse espaço, quase suspenso, o tabaco deixa de ser apenas substância e passa a ser experiência.
Do ponto de vista científico, a nicotina é uma molécula curiosa: ao mesmo tempo em que estimula, também acalma. Ao alcançar o cérebro em poucos segundos, ativa receptores nicotínicos e promove a liberação de dopamina, associada à sensação de prazer e recompensa, além de modular outros sistemas, como o colinérgico e o noradrenérgico, favorecendo atenção, foco e uma espécie de vigília tranquila. É por isso que muitos descrevem o fumar como um estado paradoxal — um relaxamento desperto, uma calma que não adormece.
Homens e mulheres, no entanto, não atravessam essa experiência exatamente da mesma maneira. Estudos de neuroimagem sugerem que podem existir diferenças na forma como a nicotina atua no organismo, com variações nos circuitos de recompensa e na regulação emocional. Em alguns casos, a resposta masculina tende a se associar mais diretamente aos mecanismos clássicos de prazer e reforço, enquanto, no organismo feminino, fatores como contexto, estado emocional e formação de hábitos podem ter um peso maior na experiência. Não se trata de uma regra, mas de tendências observadas em pesquisas científicas.

Talvez por isso, na vivência cotidiana, o tabaco apareça com nuances diferentes: para muitos homens, ele se aproxima de um gesto de intensificação — um acento no prazer, uma marca de presença; para muitas mulheres, ele se inscreve mais como um gesto de contenção — uma pausa que organiza, que acolhe, que permite atravessar estados internos com mais suavidade.
Ainda assim, há algo que os une: a sensação de alívio. E aqui reside um ponto delicado. Parte desse relaxamento percebido está, de fato, ligada à ação neuroquímica da nicotina, mas parte também se constrói na repetição do gesto. O ritmo da respiração, o calor que se espalha, o tempo que se delimita entre uma baforada e outra — tudo isso compõe um pequeno ritual que o corpo aprende a reconhecer como descanso. A ciência aponta que, em usuários frequentes, esse alívio pode corresponder também à redução de microestados de abstinência ao longo do dia. Mas essa explicação, embora válida, não esgota o fenômeno.
Porque há, também, o que escapa à biologia.
Sob uma leitura psicanalítica, o tabaco pode ser compreendido como um objeto que ocupa a fronteira entre o corpo e o psiquismo. Ele toca a oralidade — essa zona primitiva de prazer e segurança — e, ao mesmo tempo, oferece uma forma de regular o indizível. Fumar pode ser uma maneira de sustentar silêncios, de marcar transições, de dar contorno à ansiedade que não encontra nome. Há algo de profundamente humano nesse gesto repetido: uma tentativa de organizar o mundo interno através de um pequeno ato externo.
Talvez seja por isso que o tabaco, ao longo da história, tenha sido associado tanto ao prazer quanto à contemplação. Ele não apenas excita ou relaxa — ele cria um espaço. Um espaço onde o sujeito, por alguns instantes, se recolhe de si mesmo e, paradoxalmente, se encontra.
Entre a brasa e o suspiro, o que se revela não é apenas o efeito de uma substância, mas a delicada coreografia entre o corpo, o cérebro e o inconsciente. E, nesse encontro, homens e mulheres, cada qual à sua maneira, parecem buscar a mesma coisa: um modo possível de estar em si.
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Cláudia Nagau
Psicanalista e mestre em educação.
@claudianagau.psicanalista





